Síntese dos filmes Machuca e Quanto vale ou é por kilo?
No
filme Machuca aparecem questões de segregação
sócio-econômica-cultural que são o estopim de várias situações
de conflito nas ruas e na escola.
Na
cena em que o diretor apresenta os novos alunos, estes colocados na
frente da turma com expressões de enfrentamento, vergonha e
inquietação por estar sendo posto em evidencia. Quando um dos
alunos expressa conhecer um dos alunos novos como sendo filho da moça
que lava roupa para sua família. Esta cena deixa clara a distinção
das classes sociais que será instaurada na turma. Mais à frente
aparece a diferença pelos nomes, pois o menino pobre é chamado pelo
sobrenome MACHUCA e o menino rico é chamado pelo seu nome GONZALO.
Quando o aluno, loiro e rico, fala para machuca que os pais estão
fazendo um favor em pagar para eles, proletários, em estudarem na
escola e que agora estão querendo ditar regras mostra a não
aceitação da inclusão dos alunos bolsistas. Na cena em os
estudantes estão na piscina e um dos alunos debocha dos bolsistas,
chamando-os de blusa preta, o padre McEnroe deixa muito claro para
todos os alunos que para ele não há distinção entre eles, mas que
devem respeitar um ao outro. Isto é o mais importante. A maneira
diferente como as crianças são tratadas conforme sua origem fica
evidente quando Gonzalo tem atenção e desejos são realizados sem
nenhum esforço e Machuca tem que ajudar no sustento da sua família
mesmo que para isto tenha que vender bandeiras e cigarros.
A
cena em que eles dividem as latas de leite condensado ou a cena em
que Gonzalo compra pirulito para ele e Machuca ilustra que as
crianças conhecem as diferenças sociais, mas conseguem prosseguir e
socializar minimizando-as a ponto de conviverem pacificamente. Mesmo
que uma faça critica a situação de miserabilidade por parte de uma
camada da sociedade há uma compreensão de a outra não pode ser
responsabilizada pelas ações das pessoas e situações que criaram
essa circunstância social.
A
questão político-social aparece nas crianças excluídas como sendo
um direito que lhe foi negado e que devem lutar para conseguir.
Fazendo um paralelo com as crianças e jovens de agora, consideramos
que essas mesmas ações acontecem. Em 2014 quando iniciou a campanha
de vacinação das meninas contra o HPV na escola onde trabalho as
meninas comentavam que os cartazes da campanha não mostravam meninas
da realidade delas. Quando questionei que realidade era essa elas
colocaram que as roupas e atitudes eram diferentes e que muitas delas
já tinham responsabilidades de cuidar dos irmãos menores. Uma
simples imagem gera questionamentos das crianças e se não
prestarmos atenção e ouvirmos perdemos oportunidades de trabalhar
as diferenças sociais que ainda permanecem em nossa sociedade. Este
comentário foi passado para a supervisão da escola que encaminhou
para os professores das alunas.
Já
no filme Macunaíma, que não apreciei assistir, as mesmas questões
são abordadas com um olhar de esculacho da realidade da época e
atual.
Penso que o nascimento de Macunaíma
retrata o brasileiro que nasce já sem infância, que fica exposto no
mundo buscando sobreviver de qualquer jeito. Muitas vezes ouvimos
“Ele é forte. É guerreiro.”, não consideramos o que está por
trás desta fala. É o filho de mãe solteira que sustenta uma
família inteira, a ausência do pai que traz uma sensação de
abandono, que também a falta de autoridade, já que o pai representa
culturalmente a base da instituição familiar. Mesmo que atualmente
uma parcela das famílias brasileiras sejam sustentadas e organizadas
pela mulher que sai para trabalhar deixando seus filhos sendo
cuidados por outros em escola infantil ou pelo filho mais velho. As
nossas crianças, da classe popular, estão cada vez mais sendo
forçadas a amadurecerem cedo na questão de responsabilidades
familiar, mas ao mesmo tempo estão sendo menos estimuladas gerando
uma geração de crianças com déficit de aprendizagem.
Macunaíma nasce de uma “mulher
macho” que pari um filho. Esta cena retrata a realidade que
vivemos. Um país jovem, cansado e cheio de desejos de ter tudo, sem
ter que realizar nenhum esforço. Podemos ver isso na quase
totalidade política do nosso país onde o mais “esperto” vence o
mais fraco.
Esta
visão conservadora, representa a tradição colonialista que
pressupõe uma supremacia do homem branco sobre os demais grupos e
culturas. Há nesse sentido um esforço em assimilar qualquer
indivíduo aos padrões da classe média branca. As consequências
dessa visão no olhar educacional são percebidas no modelo de
privação / destituição que se centra no aluno, promovendo um
distanciamento do percebimento da realidade de classes e seus efeitos
sobre o processo educacional. Incluindo um afastamento da relação
professor/aluno.
Reconhecer a possibilidade de outras
culturas não quer dizer realizar um esforço para que as mesmas
sejam culturalmente valorizadas e tenham a oportunidade de emergir no
contexto educacional. O excluído é incluído conforme o desejo de
quem o está incluindo.
O contexto educacional torna-se um
mecanismo avassalador/silenciador, principalmente das culturas
populares, vistas como manifestações inferiores que, em relação
ao ambiente educacional, não necessitam ser incluídas no currículo.
Embora já ocorram movimentos de elaboração de currículos que
contemplem essa diversidade sem sobreposição cultural.
Na escola os diálogos culturais, que
acontecem constantemente, ainda têm o caráter de não
reconhecimento do outro mostrando que em nossa educação permanece
características da reprodução social do trabalho ou seja, a
educação é moldada conforme o grupo a qual ela se dirige.
A escola é inserida em uma região
com características geo. econômica-cultural, mas não considera que
a comunidade do seu entorno possui uma cultura formada por diferentes
grupos que foram se alojando neste espaço geográfico. Sendo a
escola de periferia ainda passa por outro processo, que é comum em
comunidades mais pobres, que é o efeito migratório por questões
financeiras ou outros motivos violentos. As diferenças sociais,
relacionadas à linguagem, cultura, costumes, classe, etc., são
vistas como divisão.
A única forma de construir uma
sociedade igualitária é através do consenso, da construção de
uma cultura comum, há não sobreposição de uma à outra cultura.
Considero que ainda não, no todo, mas
em processo, a educação busca uma perspectiva intercultural onde
alguns espaços educacionais, o reconhecimento do outro neste diálogo
entre os diferentes grupos sociais.
Muitas vezes o professor tenta incluir
o seu aluno e sua cultura no contexto escolar, mas no decorrer da
caminhada essa tentativa de aproximação cria uma tensão que acaba
criando uma ruptura nesta tentativa de aproximação. Observo que dos
professores que estão ingressando nas escolas públicas municipais
atualmente uma boa parcela destes acaba desistindo do seu cargo
exonerando-se com um ou dois meses por não estarem preparados para
atuarem em escolas de periferia. Muitos verbalizam que não fizeram
faculdade para aturarem alunos que não tem respeito por ele
professor. A qual respeito estes professores se referem. Ao aluno
permanecer sentado sem movimento e calado durante, no mínimo 50
minutos? Ou ao aluno que não possua senso crítico?
A escola pode ser excludente em
relação ao aluno e também ao professor.
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