domingo, 26 de abril de 2015

Síntese dos filmes Machuca e Quanto vale ou é por kilo?
No filme Machuca aparecem questões de segregação sócio-econômica-cultural que são o estopim de várias situações de conflito nas ruas e na escola.
Na cena em que o diretor apresenta os novos alunos, estes colocados na frente da turma com expressões de enfrentamento, vergonha e inquietação por estar sendo posto em evidencia. Quando um dos alunos expressa conhecer um dos alunos novos como sendo filho da moça que lava roupa para sua família. Esta cena deixa clara a distinção das classes sociais que será instaurada na turma. Mais à frente aparece a diferença pelos nomes, pois o menino pobre é chamado pelo sobrenome MACHUCA e o menino rico é chamado pelo seu nome GONZALO. Quando o aluno, loiro e rico, fala para machuca que os pais estão fazendo um favor em pagar para eles, proletários, em estudarem na escola e que agora estão querendo ditar regras mostra a não aceitação da inclusão dos alunos bolsistas. Na cena em os estudantes estão na piscina e um dos alunos debocha dos bolsistas, chamando-os de blusa preta, o padre McEnroe deixa muito claro para todos os alunos que para ele não há distinção entre eles, mas que devem respeitar um ao outro. Isto é o mais importante. A maneira diferente como as crianças são tratadas conforme sua origem fica evidente quando Gonzalo tem atenção e desejos são realizados sem nenhum esforço e Machuca tem que ajudar no sustento da sua família mesmo que para isto tenha que vender bandeiras e cigarros.
A cena em que eles dividem as latas de leite condensado ou a cena em que Gonzalo compra pirulito para ele e Machuca ilustra que as crianças conhecem as diferenças sociais, mas conseguem prosseguir e socializar minimizando-as a ponto de conviverem pacificamente. Mesmo que uma faça critica a situação de miserabilidade por parte de uma camada da sociedade há uma compreensão de a outra não pode ser responsabilizada pelas ações das pessoas e situações que criaram essa circunstância social.
A questão político-social aparece nas crianças excluídas como sendo um direito que lhe foi negado e que devem lutar para conseguir. Fazendo um paralelo com as crianças e jovens de agora, consideramos que essas mesmas ações acontecem. Em 2014 quando iniciou a campanha de vacinação das meninas contra o HPV na escola onde trabalho as meninas comentavam que os cartazes da campanha não mostravam meninas da realidade delas. Quando questionei que realidade era essa elas colocaram que as roupas e atitudes eram diferentes e que muitas delas já tinham responsabilidades de cuidar dos irmãos menores. Uma simples imagem gera questionamentos das crianças e se não prestarmos atenção e ouvirmos perdemos oportunidades de trabalhar as diferenças sociais que ainda permanecem em nossa sociedade. Este comentário foi passado para a supervisão da escola que encaminhou para os professores das alunas.
Já no filme Macunaíma, que não apreciei assistir, as mesmas questões são abordadas com um olhar de esculacho da realidade da época e atual.
Penso que o nascimento de Macunaíma retrata o brasileiro que nasce já sem infância, que fica exposto no mundo buscando sobreviver de qualquer jeito. Muitas vezes ouvimos “Ele é forte. É guerreiro.”, não consideramos o que está por trás desta fala. É o filho de mãe solteira que sustenta uma família inteira, a ausência do pai que traz uma sensação de abandono, que também a falta de autoridade, já que o pai representa culturalmente a base da instituição familiar. Mesmo que atualmente uma parcela das famílias brasileiras sejam sustentadas e organizadas pela mulher que sai para trabalhar deixando seus filhos sendo cuidados por outros em escola infantil ou pelo filho mais velho. As nossas crianças, da classe popular, estão cada vez mais sendo forçadas a amadurecerem cedo na questão de responsabilidades familiar, mas ao mesmo tempo estão sendo menos estimuladas gerando uma geração de crianças com déficit de aprendizagem.
Macunaíma nasce de uma “mulher macho” que pari um filho. Esta cena retrata a realidade que vivemos. Um país jovem, cansado e cheio de desejos de ter tudo, sem ter que realizar nenhum esforço. Podemos ver isso na quase totalidade política do nosso país onde o mais “esperto” vence o mais fraco.
Esta visão conservadora, representa a tradição colonialista que pressupõe uma supremacia do homem branco sobre os demais grupos e culturas. Há nesse sentido um esforço em assimilar qualquer indivíduo aos padrões da classe média branca. As consequências dessa visão no olhar educacional são percebidas no modelo de privação / destituição que se centra no aluno, promovendo um distanciamento do percebimento da realidade de classes e seus efeitos sobre o processo educacional. Incluindo um afastamento da relação professor/aluno.
Reconhecer a possibilidade de outras culturas não quer dizer realizar um esforço para que as mesmas sejam culturalmente valorizadas e tenham a oportunidade de emergir no contexto educacional. O excluído é incluído conforme o desejo de quem o está incluindo.
O contexto educacional torna-se um mecanismo avassalador/silenciador, principalmente das culturas populares, vistas como manifestações inferiores que, em relação ao ambiente educacional, não necessitam ser incluídas no currículo. Embora já ocorram movimentos de elaboração de currículos que contemplem essa diversidade sem sobreposição cultural.
Na escola os diálogos culturais, que acontecem constantemente, ainda têm o caráter de não reconhecimento do outro mostrando que em nossa educação permanece características da reprodução social do trabalho ou seja, a educação é moldada conforme o grupo a qual ela se dirige.
A escola é inserida em uma região com características geo. econômica-cultural, mas não considera que a comunidade do seu entorno possui uma cultura formada por diferentes grupos que foram se alojando neste espaço geográfico. Sendo a escola de periferia ainda passa por outro processo, que é comum em comunidades mais pobres, que é o efeito migratório por questões financeiras ou outros motivos violentos. As diferenças sociais, relacionadas à linguagem, cultura, costumes, classe, etc., são vistas como divisão.
A única forma de construir uma sociedade igualitária é através do consenso, da construção de uma cultura comum, há não sobreposição de uma à outra cultura.
Considero que ainda não, no todo, mas em processo, a educação busca uma perspectiva intercultural onde alguns espaços educacionais, o reconhecimento do outro neste diálogo entre os diferentes grupos sociais.
Muitas vezes o professor tenta incluir o seu aluno e sua cultura no contexto escolar, mas no decorrer da caminhada essa tentativa de aproximação cria uma tensão que acaba criando uma ruptura nesta tentativa de aproximação. Observo que dos professores que estão ingressando nas escolas públicas municipais atualmente uma boa parcela destes acaba desistindo do seu cargo exonerando-se com um ou dois meses por não estarem preparados para atuarem em escolas de periferia. Muitos verbalizam que não fizeram faculdade para aturarem alunos que não tem respeito por ele professor. A qual respeito estes professores se referem. Ao aluno permanecer sentado sem movimento e calado durante, no mínimo 50 minutos? Ou ao aluno que não possua senso crítico?

A escola pode ser excludente em relação ao aluno e também ao professor.

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